Filosofia 10.º Ano – Exame Nacional: Kant e Mill

Exame Nacional: Kant e Mill

1. «Não mintas se queres que acreditem em ti quando dizes a verdade.»
O imperativo anterior é hipotético ou categórico?
Justifique a sua resposta, distinguindo os dois tipos de imperativo.

2. Leia o texto.
Compete à ética dizer-nos quais são os nossos deveres, ou por meio de que teste podemos conhecê-los, mas nenhum sistema de ética exige que o único motivo do que fazemos seja o sentimento do dever; pelo contrário, noventa e nove por cento de todas as nossas ações são realizadas por outros motivos – e bem realizadas, se a regra do dever não as condenar. […]
O motivo, embora seja muito relevante para o valor do agente, é irrelevante para a moralidade da ação. Aquele que salva um semelhante de se afogar faz o que está moralmente certo, seja o seu motivo o dever, seja a esperança de ser pago pelo incómodo; aquele que trai um amigo que confia em si é culpado de um crime, mesmo que o seu objetivo seja servir outro amigo relativamente ao qual tem maiores obrigações.
J. S. Mill, Utilitarismo, Porto, Porto Editora, 2005, pp. 58-59 (adaptado)

2.1. Identifique a tese de Mill, exposta no texto, acerca da moralidade da ação.
Justifique a sua resposta com uma citação relevante do texto.

2.2. No texto, lê-se que «Compete à ética dizer-nos quais são os nossos deveres, ou por meio de que teste podemos conhecê-los». Segundo Kant, esse teste é o do imperativo categórico.
Explique como funciona o teste proposto por Kant. Na sua resposta, recorra a um exemplo.

Tópicos de correção:

1. Identificação do imperativo:
– imperativo hipotético.
Justificação da resposta:
– de acordo com o imperativo apresentado, o dever de não mentir é respeitado na condição de querermos que acreditem em nós quando dizemos a verdade;
– de acordo com o imperativo apresentado, o dever de não mentir é condicional e, assim, o imperativo que o ordena é hipotético;
– para ser categórico, um imperativo tem de ordenar incondicionalmente um dever (por exemplo, ordenando do seguinte modo: «não mintas porque não deves mentir»);
– nesse caso, o dever de não mentir teria de ser respeitado em qualquer circunstância, e não apenas na circunstância de querermos que acreditem em nós quando dizemos a verdade.

2.1. Identificação da tese de Mill acerca da moralidade da ação:
– a moralidade não depende do motivo que determina a ação (ou da intenção com que a ação é realizada) (mas dos seus resultados, ou das suas consequências).
Justificação mediante uma citação relevante:
– segundo Mill, «O motivo, embora seja muito relevante para o valor do agente, é irrelevante para a moralidade da ação» (ou «Aquele que salva um semelhante de se afogar faz o que está moralmente certo, seja o seu motivo o dever, seja a esperança de ser pago pelo incómodo») (ou «aquele que trai um amigo que confia em si é culpado de um crime, mesmo que o seu objetivo seja servir outro amigo relativamente ao qual tem maiores obrigações»).

2.2. Explicação do funcionamento do teste:
– o imperativo categórico ordena «Age apenas segundo uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal»
– segundo Kant, podemos derivar todos os nossos deveres deste imperativo;
– quando nos preparamos para agir, devemos perguntar a nós próprios qual é a máxima que determina a nossa ação e se podemos querer sem contradição que essa máxima se converta em lei universal (ou se podemos querer sem contradição que todos sejam determinados por ela);
– se não podemos, a ação é contrária ao dever e devemos abster-nos de a realizar.

Apresentação de um exemplo:
– o João precisa de dinheiro e admite pedi-lo a um amigo, prometendo pagar-lho no mês seguinte, embora saiba que não o fará; se o fizesse, o João estaria a seguir a máxima segundo a qual se pode fazer uma promessa falsa para resolver problemas; o João não pode querer que essa máxima se torne uma lei universal, pois uma tal lei destruiria a possibilidade de haver promessas; consequentemente, se fizer uma promessa falsa, o João age contra o dever.

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